Não, ela não é Billie Holiday



Lembro de quando Win Wenders lançou o fabuloso filme "Paris, Texas". Eu era um molecão e até então nem imaginava que no interior do Texas poderia haver uma cidade chamada Paris. Na época o título do filme me soava muito engraçado.
Tão engraçado quanto agora, aos 46 anos de idade, descobri Atenas nos cafundós da Georgia. Uma cidadezinha de 100 mil habitantes, conhecida (?!) por suas universidades e onde nasceu uma das mais apaixonantes cantoras da atualidade.
O nome dela é Madeleine Peyroux e, embora seja cultuada como uma cantora de jazz, ela canta mesmo é blues. E como canta!
Ok, sua voz e seu jeitinho de interpretar tem uma pitada de Billie Holiday, mas é só uma pitada mesmo. Madeleine tem timbre próprio e muita personalidade. Essa pitadinha de Billie Holiday deve ter vindo dos tempos em que ela, aos 16 anos, rodou a Europa com o The Lost Wandering Blues and Jazz Band, cantando Billie, Ella Fitzgerald e Bessie Smith.
Antes disso Madeleine integrou o grupo The Riverboat Shufflers, grupo boêmio do Quartier Latin, em Paris. Começou passando o chapéu e depois de algum tempo passou a cantar.
Toda essa vivência precoce está bem nítida em Dreamland, seu primeiro álbum, lançado em 1996. Com 3 canções inéditas e vários covers de clássicos do blues, Madeleine canta acompanhada por um time feras do jazz como o pianista Cyrus Chestnut, o baterista Léon Parker, os guitarristas Vernon Reid e Marc Ribot e o saxofonista/clarinetista James Carter.
Depois desse disco, Madeleine voltou ao anonimato, cantando nas ruas de Paris e fazendo pequenos concertos em bares e cafés, geralmente sem usar seu nome verdadeiro. Continuou também a trabalhar com outros artistas, entre eles William Galison, com quem gravou o EP "Got You on My Mind", que era vendido apenas em seus shows.
Em 2004 veio à luz seu segundo álbum "Careless Love". Com apenas uma canção original (Don't Wait Too Long) e covers de Leonard Cohen, Elliot Smith, Bob Dylan e Hank Williams entre outros, o disco alcançou grande sucesso, chegando aos primeiros lugares no Reino Unido.
E quando todo mundo (inclusive sua gravadora) achava que ela ia tomar chá de sumiço novamente, em 2006 Madeleine lançou Half of The Perfect World, outro álbum brilhante com covers de Leonard Cohen, Tom Waits e Serge Gainsburg. Este terceiro álbum trouxe uma Madeleine meio folk, dando ainda mais personalidade ao seu trabalho.
Este ano ela lançou Bare Bones, seu primeiro álbum só com composições próprias. Uma tremenda reviravolta! Sem perder a pegada do blues e do folk, ela aparece agora quase pop, quase comercial, mas sem perder a elegância e o talento. Bare Bones não decepciona, muto pelo contrário, é quase uma sequência lógica no trabalho de uma artista que não se rende às imposições do mercado e nem perde a realidade do contato com as ruas, onde a arte acontece de forma espontânea.
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