The Pillowman


Às vezes precisamos sair desse quadradinho que nós mesmos delimitamos e experimentar, vivenciar coisas novas. Ou simplesmente outras coisas.
Parece que a gente vai desenvolvendo aos poucos uma certa preguiça de escolher. Porque o processo de escolher é complicado mesmo, exige um certo trabalho e contém uma certa dose de risco que... Ah, dá uma preguiça de correr riscos também!
Moro a um ano a menos de 100 metros dos Parlapatões, um dos mais importantes teatros da cidade de São Paulo e sede da famosa companhia, homonima, que desde 1991 tem um lugar de destaque dentro da produção cultural paulistana. Mas me pergunte quantas vezes eu fui ao Parlapatões!
Milhares de vezes. No bar. O bar do Parlapa é o ponto de encontro da boêmia do Baixo Augusta/Praça Roosvelt. Gente de cinema, de teatro, da música, artistas plásticos, poetas, fotógrafos, escritores.... jornalistas, filósofos, vagabundos, intelectuais... gente bonita, gente interessante, excêntricos, loucos, pirados e até alguns caretas, todo mundo passa por lá em algum momento da noite. É um dos lugares icônicos de Sampa, sem dúvidas.
Mas nunca ter ido ao Parlapatões para assistir a uma peça é uma vergonha, uma falta imperdoável. Mesmo não sendo fã de comédias, a questão não é nem de linguagem mas sim da importância do espaço, do trabalho desenvolvido nos últimos 20 anos, sempre fiel a sua proposta.
E no domingo 30 de setembro, um dia após Kassab finalmente entregar (bem meia boca, mas entregou) a Praça Roosvelt de volta aos moradores região, após séculos amém de obras tão milhonárias quanto intermináveis... pensei que eu poderia duplicar a quantidade de milagres desse final de semana, indo assistir a uma peça no Parlapa. E fui!
Mas fui na segurança do conselho de uma amiga querida, a Fabiana Almeida, que disse que eu adoraria o espetáculo The Pillowman, um texto de humor negro de um (claro) irlandês Martin McDonagh e com direção de Bruno Guida e Dagoberto Feliz.
Não gosto de peças humorísticas mas amo humor negro. E The Pillowman é super engraçado justamente porque é um texto absolutamente sarcástico, quase ao ponto de sua origem em grego (sarkastikós), que é aquilo que dilacera a carne, metaforicamente.
The Pillowman é a relação de co-existência entre O Poder e A Impotência na constante troca de papéis dentro dessas 2 possibilidades, conforme o momento de nossas vidas. A partir do interrogatório de um escritor, indiciado pelas coincidências entre seus contos e uma série de crimes cometidos na cidade, o autor nos faz refletir sobre nosso prazer em julgar e o prazer em sermos subjugados, a medida que delegamos a outros tão parecidos conosco, o direito de nos julgar e nos castigar, expurgando nossos "pecados".
Tudo isso é colocado diante de nós como uma piada. Uma piada com lâminas muito afiadas, que nos dilacera a carne. E a gente ri muito. Um pouco é de nervoso, eu acho.
Muito boa a direção de Bruno Guida e Dagoberto Feliz, a peça é densa, tem um rítmo intenso e cheia de sacadas muito boas, além de soluções cênicas muito interessantes. Flávio Tolezani, perfeito no papel do escritor Katurian K. Katurian. Mas Daniel Infantini garante os melhores momentos do espetáculo como o investigador Tupolski.
Aí eu me senti duplamente bem. Fui prestigiar um dos templos do teatro paulistano e, como recompensa. Mas e A Praça Inacabada de Kassab, hem? Fala sério.


Gênero: Drama/Humor Negro
Texto: Martin McDonagh
Direção: Bruno Guida e Dagoberto Feliz
Com: Bruno Autran, Daniel Infantini, Flavio Tolezani e outros.
Tempo: 120 minutos (1 intervalo)
Espaço Parlapatões
Pça. Franklin Roosevelt, 158 - República - Centro. Telefone: 3258-4449.
Ingresso: R$ 30,00
Dias e Hora: Sábado 20h00 - Domingo 19h00
Curta Temporada - Até 21 de outubro de 2012

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