Canções do Destino


Movimentos são quase imperceptíveis. As cenas são como telas pintadas, como fotografias. Poéticas. E se alternam lentamente. É como observar uma rosa se abrir ou uma árvore crescer. Os olhos não percebem mas a vida está sempre em movimento.
>> A impermanência é uma constante de toda vida, diz Lin Lee-Chen, um dos maiores nomes da dança contemporânea, coreógrafa e diretora da companhia Legend Lin Dance Theatre.
Lin Lee-Chen levou 9 anos para compor Chants de la Destinée, o belíssimo espetáculo que fecha a trilogia iniciada em 1995 e que é fruto de uma intensa meditação sobre o Céu, a Terra e o Homem.


Tudo começa de forma ritualística. Velas acesas em pontos estratégicos evidenciam que o palco é um altar, um lugar que precisa ser respeitado. A entrada dos músicos reforça o caráter ritual e prepara o público para a primeira parte do espetáculo. Lin desenha um jardim dos sonhos por onde passa um rio de águas majestosas. Tudo é extremamente harmonioso nesse jardim e nele vivem, de forma igualmente harmoniosa, dois irmãos cujo o compromisso é não perturbar jamais esse mundo sublime.
Na segunda parte do espetáculo, um deles quebra a promessa, desequilibrando todo o mundo à sua volta, secando o rio e trazendo uma onda de sangue e de dor. Em cena,o cantor Hou Ching-Chwen dá um show à parte e o som ensurdecedor dos tambores dão rítmo a uma guerra interminável e agoniante.
Por fim a solidão da morte, o castigo daquele que promove o desequilíbrio, que desrespeita a unidade. E a natureza pode então se reconstruir, mostrando que no mundo só há lugar para quem sabe viver em harmonia.


A inspiração, a filosofia e a estética são orientais, obviamente. Lin nasceu em Taiwan e lecionava dança na escola Chang-an para mulheres, antes de se lançar para o mundo. Mas não espere ver nada clichê, nada zen. Mesmo na primeira parte do espetáculo, onde tudo acontece de forma muito lenta, há uma certa tensão. Nós (platéia) estamos tão distantes daquele mundo equilibrado e harmonioso, que é impossível não ficarmos incomodados.
Quando por fim nos sentimos integrados ao jardim de Lin, vem a guerra. E aí nos sentimos incomodados com a violência, com o caos, com a destruição daquele mundo perfeito do qual já fazemos parte.


O espetáculo enfim é perfeito. Uma obra de arte na extensão mais ampla e mais estreita da palavra. A coreografia de Lin Lee-Chen exige uma movimentação impossível dos bailarinos, beirando a deformidade; a cenografia e a iluminação são absolutamente simples e com um efeito espantoso; a música é magnífica; o os figurinos de Tim Yip são dignos de uma exposição posteriormente.
Chants de la Destinée passou por São Paulo em 3 apresentações no Teatro Alfa, encerrando a Temporada de Dança 2012. E eu me sinto privilegiado por ter a oportunidade de assistir um espetáculo de Lin Lee-Chen.


para minha amiga Marcia Correa

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