Oristéia II Fecha o Ciclo Ésquilo no Noir


Roberto Alvim não é um diretor fácil. Não é óbvio, não é previsível, não é comum.
Assistir seus espetáculos é experimentar nosso poder de adaptação a outras/novas possibilidades. Alguns têm mais, outros menos e alguns simplesmente não têm esse poder. E não conseguir se adaptar às propostas de Alvim não é fator excludente. Uma resposta reativa é uma possibilidade e, principalmente, se for a chave para um diálogo, um debate ou pelo menos para uma reflexão.
O que Alvim pretende com seu trabalho é gerar esse conflito produtivo, que nos leve a algum lugar além dos já estabelecidos. Que abra uma investigação maior do conteúdo e não simplesmente da forma. Como ele mesmo diz, "abrir buracos no real" para trazer à tona outros reais ou, talvez, deixar que tudo seja tragado para esse outro plano e reestabelecido de uma outra forma.
Durante os 6 últimos meses acompanhei como um fiel as estreias do Peep Classics Ésquilo, projeto que colocou em cena 6 das mais antigas peças que a humanidade tem conhecimento, adaptadas à essa nova proposta de dramaturgia que Alvim vem desenvolvendo no Club Noir.
A peça de estréia do projeto, lá no já longínquo mês de Junho, foi As Suplicantes. Um verdadeiro choque até para quem vinha acompanhando os últimos trabalhos de Alvim. Ele radicalizou completamente em sua proposta e colocou fragmentos do texto de Ésquilo em cena, com apenas uma lâmpada fria ao fundo e atores praticamente imóveis. Toda a força do espetáculo estava unica e exclusivamente nas palavras, na intenção delas.
Do choque ao desconforto foram só 2 espetáculos: Os Persas e Sete Contra Tebas, que estrearam na sequência, em julho e agosto, respectivamente. Do estranhamento passamos para a cumplicidade em setembro com a estréia de Prometeu. Quando nossos olhos começavam a se adaptar à escuridão, ele permitiu uma lembrança de luz. E assim foi também em Oristéia I, em outubro, até chegar em novembro com Oristéia II, o espetáculo que fecha magnificamente o projeto e nos permite pensar/sentir a obra como um todo.
A ausência perturbadora de luz dos espetáculos anteriores, ressalta o foco sobre o rosto de Clinteminestra, em seu momento de morte, concebida por Juliana Galdino em (mais) uma performance magistral. Na sequência um blackout nos (des)prepara para o foco traiçoeiro no monólogo final do Orestes interpretado pelo jovem e surpreendente ator Bruno Ribeiro. Essa luz, inexistente nos espetáculos anteriores, cria uma sensação tão incomoda quanto a escuridão nos primeiros, perturbando a nossa visão e o nosso julgamento do personagem.
O que fica muito claro ao final de tudo é que os fatos são os fatos, independente da nossa visão. A luz é um recurso para iludir, para prender nossa atenção em um ponto e nos distrair do resto. A dramaturgia de Roberto Alvim tira de cena todos os elementos que possam nos limitar a uma conclusão pré-definida, dirigida. Sem ter onde nos agarrarmos, estamos livres para experenciar outras possibilidades. É como se assistíssemos de olhos fechados e as vozes dos atores viessem do nosso subconsciente. Não é o outro, nem sou eu. São outros eus.


ORESTÉIA II
texto Ésquilo
direção Roberto Alvim
sextas e sábados 21h00, domingos 20h00
Club Noir
Rua Augusta 331

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