Prometeu, a antevisão de Roberto Alvim

"Aquilo que não me destrói, me fortalece."
Friedrich Nietzsche


O titã protetor da humanidade, aquele que roubou o fogo de Zeus e entregou aos mortais. Prometeu, acorrentado no topo um dos pilares do mundo, condenado a ser torturado por toda a eternidade, entregou-se à sua pena decidido a não dobrar-se diante da tirania dos deuses.
Dentro do cubo mágico criado por Roberto Alvim para encenar as tragédias de Ésquilo, Prometeu surge oculto por um manto negro com capuz, sem rosto. Ele não é humano. Está distante de nós tanto pelo fato de ser uma divindade quanto por estar acorrentado no alto de um rochedo. Tudo o que podemos ter dele é a voz - na maravilhosa interpretação de Juliana Galdino - através da qual sentimos não a dor da tortura nem a angústia do cativeiro, mas sim o fardo da eternidade e o sofrimento da traição enquanto traído/traidor.
O tenebrismo caravagiano das encenações de Roberto Alvim tomam uma outra dimensão em Prometeu, assinalando a passagem do tempo e a sobreposição das noites aos dias numa sequência de blackouts. Embora toda a iluminação seja uma única lâmpada fria no fundo do palco, a mesma das tragédias anteriores, neste espetáculo parece haver mais luz justamente por haver vários momentos de escuridão total.
Escuridão que nos remete à morte como fim de todos os martírios e certezas. Luz que renova todas as certezas e martírios.
O sofrimento, segundo Ésquilo, é o único caminho para chegar ao conhecimento mais elevado. Na encenação de Alvim a antevisão do sofrimento é o sofrimento maior. Principalmente quando ele é uma consequência inerente às nossas convicções.


Prometeu, de Ésquilo
4º espetáculo do projeto Peep Classics Ésquilo
Adaptação e direção de Roberto Alvim
Com Juliana Galdino, Ricardo Grasson, Marcelo Rorato, Paula Spinelli, Bruno Ribeiro e Jackeline Stefanski.
Sextas e Sábados às 21h00
Domingo às 20h00
Cia Club Noir
Rua Augusta, 331 - São Paulo

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