30ª Bienal de Artes de São Paulo


Conceituar a Arte Contemporânea é um assunto que pode render longas e acaloradas discussões, acadêmicas ou não, sem contudo chegar a conclusão alguma. Mesmo porque, na Arte, nenhuma verdade é definitiva.
Foi nos anos 70 que, já não cabendo nos limites da vanguarda modernista, que a arte resolveu vestir seu próprio tempo, refletindo uma sociedade em profunda (e confusa) transformação.
John Rajchman disse que "não há arte sem uma busca por novas idéias de arte, novas ideias do que seja a arte e de suas relações específicas com as instituições artísticas e com o próprio pensamento". A arte em si é toda uma cadeia que tem origem na idéia, toma forma na composição de materiais e, por fim, é conceituada pelas instituições. Quando Kant inventou a disciplina "estética", estabeleceu esse link entre o a idéia e o pensamento levando em conta as pressuposições do juízo, até mesmo quando buscam um rompimento com as institualizações.
Nas últimas décadas o fenômeno da globalização vem interferindo violentamente nas artes, influenciando toda a produção e nos forçando o tempo todo a rever nossos conceitos. Na arte contemporânea não existe uma cadeia pré-estabelecida, muito ao contrário, a subversão da ordem talvez seja sua principal característica. O sujeito da arte não é necessariamente o artista, assim como a arte não é necessariamente o produto e nem as instituições são necessariamente a parte filosófica do processo.
Assim sendo, como então definir ou, pelo menos, como começar a entender a Arte Contemporânea?


Visitando a 30ª Bienal de Artes de São Paulo chega-se à conclusão que a melhor resposta é não fazer perguntas. A arte não é uma resposta. A arte é o sentimento sobre aquilo que se expõe. E se hoje tudo pode ser exposto, todos os sentimentos são válidos.
Atento às reações de um grupo de jovens que, talvez pela primeira vez, visitavam uma exposição de arte, ouvi repetidas vezes a expressão "muito louco". Não sei se essa expressão tem algum outro significado para essas gerações depois da minha mas achei quase genial essa conceitualização tão simplória e, ao mesmo tempo, tão ampla e tão despida da necessidade de classificar.
A loucura é a estranheza, o subversivo, o não-establishment. A busca do belo no preríodo clássico foi gradativamente substituída pela busca do novo, por mais estranho (ou louco) que o novo possa parecer. A estranheza que Duchamp causou com aquela roda de bicicleta sobre um banquinho ou assinando um mictório, despertou uma nova consciência sobre o que é a arte nos tempos atuais. Livre da busca do belo, a arte ampliou ao infinito suas possibilidades estéticas e filosóficas, abrindo-se para novas/outras interpretações. E Duchamp, na época, foi chamado de louco por muitos, assim como Nijinski com o seu L'après-midi d'un faune.


E a loucura muitas vezes parece ser o estado mais pleno de consciência. E isso nãoéuma exclusividade da Arte Contemporânea. Os artistas sempre carregaram a aura de loucos, ou por estarem muito à frente de seu tempo ou por serem loucos mesmo.
E o grande destaque da 30ª Bienal de Artes de São Paulo é Arthur Bispo do Rosário, um dos mais perfeitos exemplos da simbiose de loucura e genialidade, que construiu toda sua obra durante os 50 anos em que esteve internado em hospitais psiquiatricos, utilizando as sobras e o lixo da sociedade da qual viveu excluído. Arthur Bispo do Rosário talvez seja o exemplo mais claro do que seja a Arte Contemporânea sem contudo defini-la ou fechá-la como conceito. Sua obra misturada à sua vida ou independente dela, mostra que muito mais do que a beleza, o estranho está nos olhos de quem vê.



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